segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Pomerode: entre a herança germânica e o dinamismo econômico

Como o município catarinense equilibra memória cultural, turismo em expansão e um polo industrial forte em meio a paisagens bucólicas

No coração do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, Pomerode chama a atenção pela atmosfera de tranquilidade, com praças floridas, ruas bem cuidadas e uma paisagem que remete às aldeias europeias. Com uma área de 214 quilômetros quadrados e pouco mais de 34 mil habitantes, o município ostenta a reputação de cidade mais alemã do Brasil, título sustentado pelo maior conjunto arquitetônico enxaimel fora da Europa. Essa estética singular, expressa em cerca de 300 edificações históricas, convive com um cotidiano moderno em que as tradições dos colonizadores moldam a identidade local e impulsionam a economia.

Antes de ganhar contornos germânicos, no entanto, aquele pedaço de terra abrigou populações originárias. Até o século XVI, o território constituía morada tradicional dos povos indígenas carijós e xokleng. O avanço da colonização portuguesa no litoral e no interior provocou a escravização e o extermínio de grande parte dos carijós, deixando a região esvaziada e pouco povoada durante séculos. Esse passado violento antecedeu o longo período de isolamento geográfico que só começaria a mudar no século XIX com a chegada de novos fluxos migratórios europeus.

A configuração atual do município começou a ser traçada em 1863, quando famílias oriundas da Pomerânia se instalaram na região por incentivo de Hermann Blumenau. O objetivo estratégico era estabelecer um ponto de apoio comercial que conectasse Blumenau e Joinville. Os recém-chegados receberam lotes de terra e se dedicaram ao cultivo de arroz, batata, fumo, mandioca e feijão, além da criação de animais. Com o tempo, a agricultura de subsistência e o comércio local abriram caminho para o surgimento de pequenas manufaturas e fábricas de porcelana na virada para o século XX.

Diferentemente de outras regiões do país em que os imigrantes perderam rapidamente seus traços originários, Pomerode se consolidou como uma comunidade com forte preservação cultural. O idioma pomerano, falado nas terras baixas do norte da Alemanha, resistiu ao tempo de forma oral, enquanto o alemão padrão predominava no ensino. Hoje, o Brasil possui mais falantes da antiga língua pomerana do que a própria Alemanha, onde o idioma quase desapareceu após redesenhos territoriais no pós-guerra, gerando um ambiente de coexistência linguística entre o português, o alemão e o pomerano.

Essa resistência cultural enfrentou períodos severos de repressão, sobretudo durante a Segunda Guerra Mundial e a campanha de nacionalização do governo de Getúlio Vargas. A proibição do uso de línguas estrangeiras, o veto a construções germânicas e a perseguição a manifestações folclóricas causaram agressões e traumas profundos na população, chegando ao ponto de colonos evitarem atendimento médico por não saberem se comunicar em português. Atualmente, embora a memória linguística seja valorizada, o uso diário do alemão diminui gradativamente entre os jovens, que priorizam a língua nacional para a inserção no mercado de trabalho.

Autonomia - O processo de autonomia política alcançou um marco definitivo em 21 de janeiro de 1959, quando o distrito se emancipou de Blumenau e Guilherme Alípio Nunes assumiu como primeiro prefeito provisório. Nas décadas seguintes, o município reforçou seus laços identitários ao instituir a cooficialidade do alemão em 2010 e do pomerano em 2017. A inauguração, em 2000, de uma réplica do portal de tijolos do porto de Estetino, antiga capital pomerana, simbolizou a reconciliação histórica com as origens europeias e demarcou a paisagem urbana com um monumento de reverência à ancestralidade.

Dados econômicos - Na economia, a cidade se destaca pela diversificacão e pela solidez de seu setor produtivo. Com um produto interno bruto que ultrapassa 2,8 bilhões de reais e um PIB per capita superior a 81 mil reais, o município abriga aproximadamente 360 indústrias de diferentes segmentos. O parque industrial integra fábricas tradicionais de porcelana, setor têxtil, vestuário e brinquedos, além de operações de grandes multinacionais alemãs de tecnologia e engenharia industrial, como Bosch e Netzsch, gerando empregos qualificados e renda de forma constante.

Turismo - O fluxo turístico cresce em ritmo acelerado e movimenta o comércio e os serviços locais. Em 2025, o município recebeu cerca de 1 milhão de visitantes, volume quase trinta vezes maior que a população residente. Atrações permanentes como o Zoo Pomerode, fundado em 1932 e com forte atuação no resgate de animais, convivem com parques temáticos modernos como Vila Encantada, Alles Park e Spitz Pomer Aventuras. A profissionalização de eventos como a Festa Pomerana, o Festival Gastronômico e a Osterfest, famosa pela árvore de ovos decorados, garantiu ocupação de visitantes durante todas as estações do ano.

Essa vitalidade resulta também de estratégias administrativas voltadas à desburocratização e ao apoio ao empreendedorismo. A gestão municipal implementa programas de financiamento com juros zero para pequenas empresas, promove qualificação profissional para a indústria e utiliza processos seletivos baseados em metas e indicadores de desempenho na escolha de gestores públicos. Parcerias com a iniciativa privada viabilizam a conservação de praças, ruas e canteiros, desonerando os cofres públicos e garantindo manutenção urbana exemplar.

Pomerode alcançou posição de liderança nos rankings regionais de pequenos municípios ao evitar a dependência de uma única vocação econômica. Com um Índice de Desenvolvimento Humano alto, registrado em 0,780, a localidade demonstra como é possível unir preservação do patrimônio arquitetônico, expansão turística e vigor industrial em um mesmo território, oferecendo qualidade de vida aos moradores sem abrir mão de sua singularidade histórica.

INFORMAÇÕES IMPORTANTES

Localização: Mesorregião do Vale do Itajaí e Microrregião de Blumenau, Santa Catarina, Brasil

População: 34.289 habitantes (Censo IBGE 2022)

Municípios vizinhos: Blumenau, Indaial, Jaraguá do Sul, Rio dos Cedros e Timbó

IDH: 0,780 (Alto, IBGE/2010)

Data da emancipação: 21 de janeiro de 1959



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